O ano de 1989 foi muito interessante para mim. Eram as primeiras eleições para Presidente após muitos anos de ditadura, eu tinha 19 anos e seria a primeira vez que poderia votar. O clima entre meus colegas era de muitas discussões sobre quem seria o melhor. Foi uma verdadeira festa, pois, diferente da polarização de hoje, havia muitos candidatos relevantes que tinham alguma coisa para dizer! Lula, Brizola, Covas, Ulisses, Afif, Aureliano, Maluf e "aquelle" cara.
Eu assisti a praticamente todos os debates, vi muitas horas de propaganda eleitoral gratuita e li muitas notícias e análises em jornais. Também procurei ler vários livros que me ajudassem na escolha e, dentre eles, destaco: As Veias Abertas da América Latina, Brasil Nunca Mais e Batismo de Sangue.
A leitura foi influenciada por meus antigos professores de história e geografia que sempre apresentavam uma visão crítica sobre o mundo. Era através deles que ficávamos sabendo sobre fatos que não apareciam na grande mídia e sobre as ligações ocultas e as manipulações da Globo.
Usei essa bagagem para escolher um jornal que, na minha visão, fosse o mais isento possível e pudesse me ajudar na seleção do melhor candidato, afinal era o primeiro voto que estava em jogo. O eleito foi a Folha de São Paulo porque trazia notícias de todos os candidatos, análises que pareciam isentas e, principalmente, tinha uma boa reputação entre os referidos professores.
Foi a Folha que me ajudou a escolher o Lula como candidato, embora eu tenha ficado muito tempo em dúvida entre ele e o Brizola. E, para a eventualidade de um segundo turno, cheguei até a colocar os candidatos em ordem de preferência, conforme o leitor pode observar na lista ao final do primeiro parágrafo. Infelizmente eu estava prestando o serviço militar obrigatório (a contragosto) e fui surpreendido quando, alguns dias antes da eleição, fomos obrigados a entregar nossos títulos de eleitor. Minha mãe percebeu a enorme decepção e, como votar era importante para mim, tomou uma decisão que somente as mães são capazes de tomar: mudou seu voto do Maluf para o Lula.
Gastei todas essas linhas para mostrar como um jornal foi importante na escolha do melhor candidato (que mantive por muitas eleições depois). Hoje penso no tipo de influência que esse mesmo jornal oferece aos eleitores estreantes e chego à conclusão de que as perspectivas não são nada boas. Meu pessimismo surgiu depois da constatação de que o jornal está apresentando nos últimos anos um comportamento no mínimo questionável com relação ao governo.
Não se trata de liberdade de imprensa, mas de responsabilidade de imprensa. O governo atual tem muitas falhas que devem ser criticadas, mas também possui inúmeras virtudes que devem ser informadas. Como é possível que um texto que contém apenas fatos positivos receba uma manchete negativa como se fosse uma espécie de armadilha para o leitor incauto? Como alguém tem a coragem e a desfaçatez de chamar a ditadura brasileira de "ditabranda" para justificar a manutenção da lei da anistia? Criticar o MEC por sugerir um livro para adolescentes que descreve um estupro logo após ter perdido o direito de imprimir as provas do ENEM? E o que dizer de uma matéria que apresenta uma pesquisa que aponta vantagem do candidato do governo, mas cuja manchete só destaca o fato de que o candidato da oposição mantém a liderança na região sul?
O problema não é a linha editorial, mas a falta de clareza com relação às intenções do jornal. Existem muitos jornais conservadores de qualidade mundo afora, só que eles pelo menos são honestos com relação ao próprio conservadorismo. A Folha deu uma guinada nos últimos anos e não pode mais dizer que é neutra, deveria se posicionar claramente. E, para piorar, parece que os maiores veículos de comunicação do Brasil, responsáveis por formar a opinião das pessoas, também agem de maneira parcial. Basta olhar para as capas sensacionalistas e matérias tendenciosas da Veja, para os ataques forçados a desafetos e manipulações nas entrevistas da Globo e muitos outros exemplos.
Perante tantos fatos adversos, lembrei da frase da Regina Duarte nas eleições de 2002 e penso que agora é a minha vez de dizer: eu tenho medo. Muito medo!
Binder
5 comentários:
OPAZ, legal o BINDER aparecer na lista em plena sexta-feliz... depois de uma semana de trabalho onde só deu pra colocar POSTS AUTOMÁTICOS achei ótimo um artigo de conteúdo... então vamos lá...
SIPZ, a VEJA está tendenciosa e simplesmente JULGA E CONDENA quem ela quer, as capas ja dizem tudo. A Globo então nem se fala. Está fazendo média com aquelas entrevistas dos candidatos no JORNAL NACIONAL mas é super tendenciosa. Veja no link um comentário na mesma linha que o seu post
http://analisedanoticia.blogspot.com/2008/03/provocao-da-folha-de-so-paulo.html
Pra fechar... E SE TODO MUNDO EM PROTESTO VOTASSE NA MARINA? SERÁ QUE PELO MENOS ELA CONSEGUIRIA SALVAR A AMAZONIA? JÁ SERIA MUITO BOM.
E depois que eu escrevi o post, lá vem a revista Época com mais um factóide.
... e pra vc que é um discípulo STAR WARS não vá esquecer o sábio ensinamento...
" O MEDO É O CAMINHO DO SOFRIMENTO"
JOPZ
Parabéns pelo blog! Que tenha vida longa!
Quanto ao texto... É a eterna luta: educação, leitura competente, tudo isso resolveria o problema. Pessoas que leem e ENTENDEM o que leem formam suas próprias opiniões! Tem gente que luta por isso e faz alguma coisa, tem outros que boicotam o quanto podem porque conhecem os perigos de ter população com educação... Continuaremos lutando!
Obrigado a vc pela visita e comentários.
Valeuz,
JOPZ
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