"Assistir WEEDS foi uma VIAGEM"
Esse é o trocadilho APARENTEMENTE perfeito para falar sobre WEEDS, mas isso não é verdade, dizer isso seria exagero... WEEDS na tradução literal significa ERVAS DANINHAS, porém também é uma giria em inglês para MACONHA... então isso até explica o trocadilho, mas pra viajar na telinha da TV tem que assistir o mestre DAVID LYNCH (Twin Peaks ou Cidade dos Sonhos) porque WEEDS não é uma serie que te faz viajar e também não é viciante.
Weeds foi divertido de assistir e compartilho aqui altos e baixos, sem medo dos spoilers porque afinal essa série entrou no ar há mais de VINTE ANOS então tá mais do que vista, batida, falada, repetida e provavelmente perambulando pelas veredas do ESQUECIMENTO. Aproveitei o catálogo da NETFLIX para ver as 8 temporadas.
Essa tematica DROGAS (com foco na maconha, mas também aparece Haxixe, Heroina e Ecstasy) não é um tema leve... vide os filmes O EXPRESSO DA MEIA NOITE, TRAFFIC, TRAINSPOTTING que quando eu assisti me deixaram com aquela sensação de estomago revirado e muito reflexivo... WEEDS não escolheu essa linha, WEEDS escolheu a erva como tema em tom de COMÉDIA + drama pessoal que acompanha cada personagem.
Basicamente tudo gira em torno de uma questão central...
FAMILIA/FILHOS JUSTIFICA TUDO?
Quando a série começa conhecemos a NANCY BOTWIN. Ele acabou de ficar viúva pela primeira vez. Marido morreu de infarto e deixou ela com hipoteca pra pagar e dois filhos pra criar. Ela começa a VENDER MACONHA na pequena cidade de suburbio chamada AGRESTIC. Ao longo das 8 temporadas tudo que ela faz é pra criar os filhos, manter a familia unida, nem que pra isso ela precise praticar todo tipo de crimes como tráfico, suborno, formação de quadrilha, extorsão, sequestros, aborto, eutanásia, ameaça, casamentos de fachada e muito mais. Esse é o ponto que me deixou mais reflexivo, porque muitas vezes já ouvi amigos dizendo "mataria pelos filhos" como se ter um filho é o mesmo que ter "licença para matar", quem tem um filho pode tudo... mas esquecem que filhos quase todo mundo tem então é tipo "liberou geral".
(Filho não deve ser "sentido da vida" pois colocar um filho como o único sentido da vida é um fardo pesado para a criança e um risco de frustração para os pais, pois o papel de um filho não é preencher vazios emocionais e realizar aquilo que os pais não conseguiram, não pode ser um objeto substituto e exigir que uma criança valide a existência dos pais é criar uma imensa sobrecarga narcísica, mas chega de divagações psicanaliticas e de volta a WEEDS).
Nancy Botwin apesar de estar vinculada com muuuuuitos tipos de crimes usa e abusa de uma arma mais sutil... seu charme, sua beleza, sua sensualidade e seu irresistível poder de persuasão... ela cria uma "clima" com os homens (e as x até com mulheres) que passam a ser emocionalmente dependentes dela. Ela transa com o traficante local pra não apanhar, ela transa com o Conrad pra ele produzir maconha pra ela, ela casa com um agente do DEA pra ter proteção, ela transa com um rabino judeu porque gosta de viver perigosamente... idem para o barman... idem para o médico comprar maconha sintética... enfim, a série tem algumas cenas HOT e tai um pouco do look fatal que ela usa e abusa:



Resumindo, ela esta o tempo todo de vestidinho curto, shortinho, fazendo cara de coitadinha, de bobinha, de indefesa e assim conseguindo proteção dos produtores, vendedores e distribuidores de erva, do policial do departamento antidrogas (DEA) que cai nos encantos dela. Pra que usar ARMAS se pode usar um SORRISO? Aparentemente nenhum homem está imune ao poder de encantamento e sedução dessa mulher.
Apesar de ter 8 temporadas, os episódios são curtos, com aproximadamente 25 minutos cada, então é rapido e fácil assistir. A abertura das primeiras temporadas é super simbolica, retrata a vida monótona, repetitiva e "industrial" dos suburbios onde o individuo é só "mais um" no sistema... mas isso muda e cada abertura é uma pequena obra de arte... se OS SIMPSONS se reinventa a cada abertura, WHY NOT uma série televisiva? Achei legal...
Falando nas mudanças da ABERTURA, um outro ponto POSITIVO foram as "MUDANÇAS DE RUMO"... não é aquela sensação de eterna repetição que encontramos em HOUSE ou CSI... WEEDS começa com três temporadas no suburbio... dai foram para uma cidade do litoral chamada REN MAR... depois mudou novamente e foram para SEATTLE, NYC e até para a DINAMARCA e MÉXICO. Tentaram ir para o CANADA também, mas isso não deu jogo... certo momento passaram a rodar pelo país em um MOTOR HOME (muito legal essa fase) até retornarem praticamente ao que começaram.
Um ponto bastante NEGATIVO foi o descaso total com a personagem que começou como forte antagonista, a CELIA HODES (Elizabeth Perkins) que simplesmente SUMIU apos a 5a temporada e nada foi dito/explicado sobre a personagem. Aparentemente ela virou pequeno traficante igual a Nancy no inicio da série... Na vida real ela saiu pra tocar outros projetos, mas os roteiristas bem que podiam dar um destino claro para a CELIA que foi tão presente em mais de metade da série e merecia algum tipo de final.
A série mostra um mundo onde praticamente TODOS vivem em uma zona cinzenta da moralidade, ou seja, as pessoas vivem em comunidade pagando de felizes, mas são tristes, pagando de bom cidadão, mas agindo de forma errada... o vereador DOUG é super corrupto... o agente do DEA com quem ela casa também é corrupto... o professor do Shane é corrupto... o policial que vira "figura paterna" para o Shane é o simplesmente o REI DA ZONA CINZENTA... já os policiais e os politicos mexicanos são retratados como 110% corruptos.. tudo é fora da lei... tudo pode ser comprado, seja sua posição politica ou sua própria liberdade.
A série toda é um grande faz-de-conta onde produzir, vender e manter uma rede de distribuição de MARIJUANA parece algo simples, fácil e que compensa muito. Não precisa ter experiencia e não precisa ser profissional, basta acreditar, seguir em frente que tudo dá certo no final.
Alem disso existe o lado PATÉTICO... eles mostram os usuários da maconha como pessoas idiotas, estupidas, como se fossem totamente incapazes de fazer algo bem pensado, bem planejado, é como se a vida de um usuário de maconha fosse gerida simplesmente pelo destino... vão para onde a vida leva... fazem o que a vida oferece... o personagem DOUG e o advogado DEAN são a quintessencia da estupidez e mesmo assim SE DÃO BEM NO FINAL. No geral a série usa e abusa de humor negro e sendo politicamente incorreta do inicio ao fim (até porque inserção e cultura woke começaram em 2014 e Weeds terminou em 2012).
E falando em FIM a série termina com aquela sensação de todo mundo se arrumou:
O filho SILAS não virou drogado, casou com sua paixão de adolescencia MEGAN (a menina muda) que é uma personagem TOP, que sabe o que quer e não deixa a Nancy manipuladora ganhar espaço com ela nem com a netinha Flora. Silas ainda trabalha com maconha, porém tudo na legalidade agora... mas longe da mãe.
O filho SHANE não virou usuário, mas está praticamente alcolatra. Ele aceita uma vida de mediocridade na policia (mas ele é assassino que não pagou pelo seu crime então está no lucro). A mãe foi pra cadeia por ele. A mãe tentou ser pai e mãe, mas ele a troca por uma figura paterna ridícula e aparentemente mais importante pra ele do que ficar proximo da mãe.
O filho STEVIE (Esteban Jr.) descobre as mentiras da mãe e a verdade sobre o seu passado e o pai traficante, liberta-se das mascaras da religião judaica que estavam sufocando e vai ser feliz longe da mãe e virar adulto em um colégio interno.
Já ela NANCY deixa o amor platonico dela com o Andy se consumar e no mesmo ato toda aquela química se desfaz (Como disse Oscar Wilde no livro Retrato de Dorian Gray, a melhor forma de acabar com um desejo é se rendendo a ele)... E assim com sua tara eterna pela Nancy satisfeita ele casa e vai ser feliz na praia (com outra mulher), longe da Nancy.
ENFIM: a toda-poderosa mamãe-traficante-faço-tudo-por-vcs se deu bem na parte financeira.. vendeu suas lojas de maconha legalizada para o STARBUCKS!!! Mas mesmo com todo esse din din em caixa, ela acabou sozinha... Se ela queria ter os filhos debaixo da sua asa então falhou. Se ela queria os filhos bem educados em uma universidade talvez só o Stevie consiga. Se ela queria ter marido ao seu lado (especialmente o Andy) falhou novamente e só conseguiu acumular maridos mortos:
Viúva do Judah (morreu de infarto)
Viuva do detetive Peter (morreu assassinado por traficantes)
Viúva do megatraficante ESTEBAN (morreu assassinado por traficantes)
Viúva do rabino David (morreu em acidente de transito)
... Em primeiro plano ela termina sozinha, sem marido e sem os filhos por perto, mas com um sorriso idiota no rosto por ainda ter a familia sentada "ao seu redor" e em silencio ao pé da escada. Finge que está feliz e finge que esta tudo bem mesmo tendo tomado um tiro e carregar uma bala dentro da cabeça.
... Em segundo plano a mensagem que encontrei nesse final é que a maconha é uma máscara, uma fuga, um remédio pra fazer as pessoas fugirem da realidade e viverem uma falsa felicidade. Passa a mensagem de que "o crime compensa" depois de matar, furtar, roubar, traficar drogas estão todos soltos, todos vivendo suas vidas independentes dela e com alguma sensação de normalidade e felicidade (mesmo que seja de aparencia). Isso fica bem evidente com a Nancy dando um "tapinha" sentanda na escada, usando a maconha como analgésico para almas sofredoras.
... Em terceiro plano a série é uma critica as mascaras da normalidade. Critica a imagem de "familia perfeita". Serve como reflexão sobre a corrupção nas instituições ESCOLA X POLICIA X POLITICA X GRANDES EMPRESAS. Serve como reflexão sobre "o que é ser FELIZ". Serve como reflexão sobre O QUE É SER MÃE NANCY? O QUE É SER PAI ANDY?
Até que ponto esse retrato infeliz da sociedade
que vive atras de máscaras
que usa drogas como analgésico emocial
é verdade ou fantasia televisiva?
Pra mim WEEDS serviu como comédia bobinha pra assistir enquanto jogava xadrez e mahjong no celular (mais ouvindo do que vendo). JOPZ CURTIU PORQUE É FÃ DA MARY-LOUISE PARKER, cairia fácil no jeitinho PINUP TRISTE dela... MAS JOPZ NÃO RECOMENDA. Se vc procura filmes/séries com o tema DROGAS tem coisa melhor disponivel. E se vc procura comédias IDEM. Vide:
TRAFFIC
TRAINSPOTTING
O EXPRESSO DA MEIA NOITE
CIDADE DE DEUS
MEU NOME NÃO É JHONNY
O GANGSTER

P.S. Como ATRIZ achei a Mary-Louise Parker excelente,
o papel caiu igual uma luva ou foi ELA que soube viver o personagem
com perfeição? Ela consegue incorporar o espírito guerreira,
mãe e agente do CAOS como ninguem.
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